O Negro no Mercado de Trabalho

Uma publicação do Centro de Estudos Sociais e Sindicais 1º de Maio

As marcas do preconceito, de acordo com alguns sindicalistas, podem ser observadas na gestão das grandes companhias que dificilmente são lideradas por negros

Nos últimos anos, o Brasil sofreu mudanças significativas, especialmente na formação da sociedade e da economia nacional. O final da década de 1980 foi marcado pelo fortalecimento da sociedade civil em oposição ao regime militar e pelas transformações estruturais da indústria.

Embora evolutivas, as mudanças trouxeram consequências. Houve crise na dívida externa, aumento nas taxas de inflação, incapacidade do Estado brasileiro em manter os investimentos que garantiriam a expansão da infraestrutura do País e, consequentemente, a estagnação econômica. Estas dificuldades também se refletiram no mercado de trabalho, causando desemprego, ausência de vagas para os jovens, avanço da terceirização da mão-de-obra e crescimento da informalidade.

Neste cenários, também ficam evidentes as profundas marcas da desigualdade e discriminação deixadas com o fim do período escravista. "Apesar da ampla participação nas indústrias, dificilmente encontramos algum negro no cargo de gestor nas empresas. Posso afirmar que não conheço nenhum", crítica Raimundo Souza Suzart Lima, coordenador da Federação dos Trabalhadores do Ramo Químico (FETQUIM) da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Comissão de Igualdade Racial do Sindicato dos Químicos do Estado de São Paulo.

No universo das 500 maiores empresas brasileiras, os negros ocupam somente 5,3% dos cargos de nível executivo, segundo pesquisa realizada desde 2001 pelo Ibope e Instituto Ethos, em parceria com o Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Os resultados da Pesquisa "Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas" revelam marcas da desigualdade nas grandes companhias e a necessidade de realizar políticas e ações para mudar esse cenário. "Os negros estão sempre ocupando postos inferiores nas indústrias, raramente ocupam cargos de chefia", reforça Lima.

Nos cargos com níveis inferiores na hierarquia, eles são a maioria (31,1%). A situação é pior entre o público feminino negro, aproximadamente 9,3% ocupam cargos funcionais, somente 0,5% integra o quadro executivo das empresas.

"O Brasil se prepara para tornar-se a quinta maior potência econômica global, mas permanece uma das sociedades mais desiguais do mundo. Devemos, portanto, dedicar todos os esforços para trazer os direitos humanos ao mesmo patamar da economia. A promoção da diversidade e equidade é um passo decisivo nesse sentido", reforça o documento.

Segundo o sindicalista, o debate sobre a questão racial no Brasil ainda é bastante complexo. "Dificilmente as pessoas se intitulam negras, para maquiar essa verdade foram criadas variedades de cores, como moreno, claro, mameluco e pardo, quando na realidade só existem três raças é o branco, negro e o amarelo, porém, muitos ainda se identificam como pardos".

Na Região Metropolitana de São Paulo, os negros representam aproximadamente 34% da População em Idade Ativa (PIA), mesma proporção na composição da População Economicamente Ativa (PEA), que reúne o índice de ocupados e desempregados, segundo Pesquisa de Emprego e Desemprego realizada em 2010 pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Apesar desse percentual, existem ainda parcelas desiguais em comparação com os brancos nos quadros funcionais das empresas.

Esses trabalhadores recebem, em média, R$ 5,81, contra R$ 9,62 pagos aos demais trabalhadores. De acordo com o estudo, a desigualdade é o principal motivo da dificuldade de inserção do negro no mercado de trabalho, que ocorre principalmente nas ocupações menos especializadas e pior remuneradas.

Em 2010, o índice de população negra economicamente ativa que trabalhava em funções domésticas era de 10,8%, enquanto entre os que se declararam brancos e amarelos, essa proporção era de 5,7%.

"Mesmo os preparados e qualificados, por causa da cor, dificilmente conseguem se encaixar em uma colocação elevada, como diretoria ou mesmo no departamento de Recursos Humanos de empresas", analisa João Braz da Silva (Fotão), vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e diretor estadual da Força Sindical, responsável pelo Departamento de Promoção de Igualdade Racial.

Os negros estão presentes no quadro "Operários" (1933) da pintora Tarsila do Amaral, que expressa o mundo do trabalho nas fábricas

Pesquisa mostra dura realidade

A população brasileira é formada por aproximadamente 191 milhões de pessoas. Desse total, 97 milhões (cerca de 50,7%) são negras ou pardas, segundo o Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No mercado de trabalho, eles enfrentam duras batalhas que começam na dificuldade de acesso ao emprego e na ocupação de postos menos qualificados. Quando alocados profissionalmente ainda se deparam com a questão dos salários, com remuneração inferior a que é paga aos trabalhadores brancos.

Mesmo com os avanços das últimas décadas, com a aprovação de leis de combate ao racismo, as diferenças entre negros e brancos ainda são marcantes, especialmente no mercado de trabalho, conforme revela o relatório Global sobre a Igualdade no Trabalho de 2011, realizado pela Organização Internacional do Trabalho da (OIT).

No Brasil, informa o relatório, a taxa de desemprego entre brancos e pardos é 10,1%, superior à registrada entre os trabalhadores brancos, de 8,2%. Apesar de representarem 45,5% da população ativa, os negros constituíam 50,5% da massa desempregada.

A desigualdade também é apontada como um dos principais obstáculos enfrentados pelo Brasil para alcançar melhor posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O País avançou de 0,715 em 2010 para 0,718 em 2011, subindo uma posição no ranking global, passando da 85ª para a 84ª posição do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) apresentado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Apesar do crescimento, se considerada a desigualdade de condições que o País oferece, o índice cai para 0,519, uma perda de 27,7% de acordo com o órgão.

Censo da desigualdade

No Brasil, 161.990.266 pessoas estão inseridas em alguma das classes de trabalho analisadas pela pesquisa Censo Demográfico de 2010, realizado pelo IBGE. Deste total, apenas 12.974.794 são negras e representam somente 8% do total da população com algum rendimento mensal, enquanto os brancos chegam a mais de 48% do total.

A diferença cresce na comparação entre os salários: 721.865 de pessoas, que se declararam brancas, afirmaram possuir remuneração mensal na faixa entre 15 e 20 salários mínimos, que é a maior remuneração, conforme mostra gráfico. Entre os declarados negros que afirmaram atingir o mesmo rendimento mensal esse número caiu para 18.268. Os negros representam pouco mais de 2% da população melhor remunerada, enquanto os brancos chegam a quase 82%.

Na faixa que determina a remuneração mais baixa do censo (até 1/4 de salário mínimo, equivalente a R$ 127,50), a distância entre brancos e negros é um pouco menor, confirmando a tese de que os negros ainda ficam com os menores rendimentos. A quantidade de declarados brancos com esse rendimento é 1.404.515 contra 482.214 entre os declarados negros, que somam 9,5% do total. Os brancos, nessa faixa, chegam a quase 28%. Uma diferença bem menor do que a constatada entre os maiores rendimentos mensais.

Para Raimundo o debate sobre racismo é complexo

Para Raimundo o debate sobre racismo é complexo

José Braz da Silva defende a igualdade de salários

José Braz da Silva defende a igualdade de salários

Contingentes por cor ou raça

O negro sempre presente

A publicação que você, leitor, tem em mãos foi concluída exatamente no dia em que o Supremo Tribunal Federal, por dez votos a favor e nenhum contra, considerou constitucional o sistema de cotas raciais para o ingresso de alunos afrodescendentes em universidades públicas.

O programa, mesmo antes de ser implantado, vem sofrendo críticas e ataques por suas imperfeições. De fato, o sistema de cotas raciais não corrige o erro histórico cometido pela sociedade contra os negros, ainda, no século 21, marginalizados em vários aspectos. Entretanto, torna a sociedade menos injusta.

As desigualdades encontradas entre os brasileiros são enormes e flagrantes. Elas não estão confinadas somente aos parâmetros econômicos, vão além. Negros e pardos, mesmo padrões socioeconômicos médios e elevados, sofrem preconceitos de toda ordem e em várias situações.

A discussão do tema no âmbito do judiciário despertou a reflexão por parte dos brasileiros, e o debate se espraiou por todos os círculos sociais.

O sistema de cotas, enfim, procura recuperar acelerar a inclusão do negro e alterar a geometria da pirâmide social brasileira.

Felizmente, ao enveredarmos pelo tema referente ao negro e sua participação no movimento sindical, nos deparamos com alguns paradigmas quebrados no seio dos sindicatos: o preconceito é menor entre os trabalhadores, particularmente entre os do ABC, objeto principal da publicação.

Constatamos, alentadamente, a existência de negros na diretoria e mesmo na Presidência de diversos sindicatos na região do ABC.

É preciso ressaltar que o protagonismo do negro no movimento sindical não é recente, ele remonta aos primórdios do século 20, quando as primeiras entidades sindicais são criadas, bem como os partidos de esquerda, nascidos, em sua maioria, pelos ideais anarquistas e socialists trazidos ao Brasil pelos trabalhadores europeus.

O negro, como se vê, sempre esteve presente nas lutas dos trabalhadores brasileiros.

Carlos A. B. Balladas