A Trajetória dos Negros no Brasil

Uma publicação do Centro de Estudos Sociais e Sindicais 1º de Maio

Embora libertos oficialmente da escravidão em 1888, os negros brasileiros lutam, até hoje, contra o preconceito, a opressão e as injustiças que os perseguem desde aquela época. Para entendermos melhor a busca pela igualdade racial na sociedade, precisamos voltar ao passado.

Segundo dados históricos, essa batalha começou por volta do ano de 1600, quando escravos fugidos dos engenhos de açúcar fundaram o Quilombo de Palmares, na Serra da Barriga, Alagoas.

Com o fim da escravidão e a proibição do tráfico de africanos, inicia-se no Brasil uma nova modalidade produtiva, com a transição do trabalho compulsório para o livre. Nesse período, começam a se formar as primeiras indústrias.

No início do século 20, a proporção de trabalhadores livres começa a crescer de maneira acelerada. "Os proprietários de terra começam a substituir a mão-de-obra de africanos escravizados por estrangeiros, que eram indenizados pelo Estado", explica Weber Lopes Góes, historiador e especialista em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André.

Além disso, destaca o historiador, esses imigrantes também foram trazidos ao Brasil para atender aos preceitos da elite da época, que eram suprir a demanda do mercado e implantar o conceito de nação branca, civilizada, capitalista e cristã, modelo seguido em países europeus. "Instalados, sobretudo, na cidade de São Paulo, esses estrangeiros trouxeram a ideologia dos movimentos anarquista e comunista. Por essa razão, passam a se organizar e discutir a sua condição como trabalhadores explorados".

Do outro lado, se encontra uma parte dos descendentes de africanos alforriados, mas sem recursos para garantir a própria sobrevivência, pois o mercado de trabalho foi abastecido com mão de obra estrangeira. Criminalizados e perseguidos pela polícia, esses negros eram classificados como 'vagabundos', e eram presos sem motivo. Para justificar essa opressão, o Estado criou a 'Lei da Vadiagem', que determinava a proibição da prática da capoeira e de manifestações religiosas de matrizes africanas.

Cansados da exclusão, eles começam a consolidar espaços de organização para discutir a opressão do Estado. São criados jornais informativos, como o Clarim da Alvorada, O Alfinete, a Imprensa Negra e clubes de recreação, para consolidar estratégias de combate à discriminação e ao racismo vivido pelos negros.

"Os estrangeiros que vieram para cá queriam trabalhar apenas na indústria e se recusavam a fazer serviços considerados de escravos, como transportar materiais, abastecer portos e cortar cana. Para eles, o trabalho escravo era uma coisa e o proletariado outra", destaca o historiador.

Nesse momento, é possível entender a setorização do mercado de trabalho e a divisão de ocupações entre negros e europeus. "Quando os primeiros movimentos operários começaram, o negro não era visto nem como proletariado e nem como trabalhador, por causa dessa hierarquização da forma de organização do serviço", lembra Góes.

Um partido dos negros

O historiador aponta que os negros foram os responsáveis pela criação, em 1931, do partido político Frente Negra Brasileira (FNB), depois cassado no governo de Getúlio Vargas, em 1937. "Mesmo com várias divergências ideológicas no seio do partido, essa iniciativa demonstra a capacidade de organização dos negros em nosso País", conclui.

Liderada por Arlindo Veiga dos Santos, a Frente Negra desenvolvia discussões de caráter político, cultural e educacional para seus associados. Composta por vários departamentos, o partido chegou a criar escolas para alfabetização de crianças, jovens e adultos sócios.

Com o propósito de discutir o racismo, a fim de promover melhores condições de vida aos negros, a entidade editava o jornal "A Voz da Raça". Segundo um dos seus fundadores, Francisco Lucrécio, no início, muitos não compreendiam os objetivos da Frente Negra. Diziam que eles estavam fazendo 'racismo ao contrário'. No entanto, com o tempo, os membros do partido adquiriram a confiança tanto da comunidade, quando da sociedade paulista.

A tentativa de eleger um trabalhador negro presidente

Minervino de Oliveira

Combater o preconceito, ainda existente na cultura brasileira, é uma tarefa difícil. Em 2010, o País deu um importante passo ao eleger a primeira mulher presidente, Dilma Rousseff. Nas eleições de 1930, um operário negro concorreu ao cargo, durante um período marcado por perseguições políticas.

Minervino de Oliveira era aprendiz de tecelão quando ingressou no Bloco Operário Camponês (BOC), sigla usada para disfarçar a atuação política do Partido Comunista do Brasil. Em 1924, intensificou sua participação na luta sindical e à época realizou os primeiros discursos obtendo, em pouco tempo a simpatia dos operários. Em 1928, Minervino foi indicado pelo Bloco Operário Camponês para concorrer ao cargo de intendente (função semelhante ao atual vereador) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A campanha foi marcada por perseguições, confrontos com a polícia e prisões.

O candidato operário recebeu muitos votos, mas não o suficiente para ser eleileito. No entanto, um acidente aéreo, que matou dois intendentes eleitos, abriu caminho para a posse do Minervino. As dificuldades continuaram. Os pronunciamentos do operário deixavam de ser publicados constantemente, principalmente, após a proibição da propaganda comunista, em 1930.

Durante este período, a corrida presidencial começou. De um lado, Getúlio Vargas, candidato da Aliança Liberal, e de outro, Júlio Prestes, representante das oligarquias tradicionais. O Bloco Operário Camponês decidiu tentar eleger um candidato, o primeiro nome a ser cogitado foi o exilado Luiz Carlos Prestes, mas o convite foi recusado. Após um grande congresso realizado pelos operários ficou decidido que Minervino de Oliveira seria o candidato do BOC à Presidência e o ferroviário Gastão Valentim Antunes, seu vice. Durante a campanha ocorreram novas perseguições, efeito que também refletiu na apuração das urnas.

No Rio Grande do Sul, estado de Vargas, onde o Bloco Operário Camponês contava com mais de cem membros, nenhum voto foi contabilizado e em São Paulo, os operários tiveram apenas 28 votos.

Após a Revolução de 1930, a Câmara Legislative foi fechada e os mandatos foram cassados. Minervino foi preso e libertado somente em 1931. A partir desse momento, a trajetória do trabalhador negro, que foi candidato à presidência da República, possui poucos registros.