
As lembranças da origem de seus antepassados estão cuidadosamente guardadas na memória de Wilson Roberto Ribeiro, presidente da Associação dos Metalúrgicos Aposentados (AMA). O regime escravocrata ainda reinava no Brasil quando em 1886 seus antepassados, originários da realeza de Guiné-Bissau, desembarcaram no estado do Maranhão, onde forma vendidos para fazendeiros mineiros.
Filho de trabalhadores rurais, Wilson nasceu em 1950, na cidade de Bebedouro, interior de São Paulo. Para auxiliar no sustento da família, ainda menino começou a trabalhar como alfaiate e tintureiro.
Em 1972, aos 21 anos, Wilson decide tentar a sorte em Jundiaí. Durante dois anos, morou e trabalhou no município, onde também se casou. No ano seguinte, após receber uma boa proposta de trabalho, muda-se com a família para a região do ABC. "Fui trabalhar como ferramenteiro na Forjaria São Bernardo. Naquela época, a indústria metalúrgica estava no auge, mas as pessoas trabalhavam sem nenhuma estrutura. Os equipamentos de segurança usadas na empresa eram descontados do nosso salário", lembra.
É nessa época que Wilson conhece o Sindicato dos Metalúrgicos. Em 1974 filia-se ao movimento. Por causa da repressão do regime militar e também dos empresários da época, o cadastro de filiação era feito escondido, no banheiro da empresa. "Se o patrão descobrisse que o funcionário era sócio, era demissão no ato, e dificilmente a pessoa conseguia outro emprego", conta.
De acordo com Wilson, o movimento sindical começou a sair da clandestinidade quando Lula começou a realizar discussões referentes à melhora das condições de trabalho. Naquela época, o índice de trabalhadores acidentados na linha de produção era bastante elevado. "As empresas desconheciam a força do sindicato. Quando elas descobriram que cerca de 80% dos trabalhadores eram sindicalizados ficaram surpresas. Isso fortaleceu ainda mais o movimento", destaca.
Na Mercedes Benz , empresa na qual ingressou em 1987 e se aposentou em 1996, conseguiu voltar a estudar. Apesar de concluir sua caminhada como trabalhador, Wilson nunca parou.
Hoje, embora aposentado, continua ligado à causa sindical. Recebeu o convite para integrar uma chapa na AMA, associação da qual depois se tornou presidente. "Estou à frente da associação deste 1998. Aqui consegui concluir o ensino médio pela Confederación Nacional dos Metalúrgicos (CNM) e ingressar na faculdade". Em 2010, formou-se no curso de gestão pública.
Falta reconhecimento!
A inserção da participação do negro no sindicalismo começa a ser discutida em 1981. Durante uma visita ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a então inúmera Benedita Silva chama a atenção para essa questão. "Ela destaca a importância da história de luta dos negros e sugere a criação de uma comissão para debater o racismo", explica o sindicalista. Assim, surgiu a Comissão de Combate ao Racismo.
Segundo Ribeiro, apesar de desempenharem a mesma função dos trabalhadores brancos, os negros recebem salários menores. "Para justificar essa diferenciação, as empresas contemplavam os brancos com cursos de aperfeiçoamento. Nas empresas o racismo existe, principalmente no chão de fábrica. Dificilmente vemos um negro ocupando um cargo hierárquico", critica.
Wilson também censura o sindicato alertando que a parcela de negros e mulheres dentro do movimento deve ser maior. "A instituição sindical nasceu para buscar a qualidade de vida para todos os trabalhadores, independentemente da cor, raça ou sexo. Então a briga da comissão de combate ao racismo é debater uma questão da igualdade e colorização da raça", destaca.
"No Brasil, é impossível acabar com o racismo, afinal, o próprio negro tem inúmera de si mesmo", acredita Wilson. Ele avalia que para começar a combater é preciso melhorar a situação do negro no mercado de trabalho e na educação.
Comerciários e a questão do racismo na região do ABC
Os comerciários de São Paulo organizaram o sindicato da categoria em 15 de maio de 1941, se tornando posteriormente um dos maiores sindicatos da América Latina. No ABC, a história dos trabalhadores da área do comércio teve como principal conquista a redução da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 – com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 231, de 1995.
Após esta significativa vitória, o sindicato ainda conseguiu benefícios como o adicional de quebra de caixa a operadores – diferença entre a quantia em caixa e o que realmente deveria constar. Até determinado valor, é revelada como gratificação ao servidor ou empregado responsável -, a garantia de estabilidade durante a gestação, o auxílio-creche e as negociações de Participação nos Lucros e/ou Resultados (PLR).
O atual vice-presidente Lourival Cristino Santos, que atua na área sindical desde 1974, período no qual trabalha na montadora General Motors (GM) e foi membro do Sindicato dos Metalúrgicos, conta que o Sindicato dos Comerciários do ABC tem o costume de receber movimentos sociais engajados na luta contra o racismo. "Organizações na luta contra o racismo. "Organizações que tratam de questões raciais geralmente possam por aqui e deixam materiais informativos, fazendo convites para eventos e mesas de discussões. Quando somos convidados, sempre participamos", diz.
No entanto, ele afirma que o sindicato não possui um setor específico para tratar questões envolvendo o trabalhador negro. "Aqui na instituição, independente da cor, raça ou posição social, temos um piso (salarial) da categoria e a empresa precisa respeitar. O funcionário deve estar dentro desse piso", lembra o vice-presidente.
Em relação às dificuldades de ascensão profissional do trabalhador negro no setor comerciário, como ocorre em outras áreas, Lourival desconhece relatos sobre racismo. "Pode ser que aconteça algum caso, no qual a pessoa deixe de ser promoted pelo fato de ser negra, mas até hoje nenhuma denúncia desse tipo chegou ao nosso conhecimento", explica
Discussões sobre a situação do trabalhador negro são abordadas pelo sindicato em debater como a 1ª Oficina Integrada de Sensibilização e Formação de Dirigentes Sindiciais e Lideranças Sociais Sobre as Questões Raciais, organizada pela União Negra Ituana em parceria com o Sindicato dos Comerciários de São Paulo e a Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo.
Para o vice-presidente, participar desses encontros é importante, mesmo considerando que atualmente o sindicato não faça nenhuma abordagem interna específica sobre o tema.
