Os Químicos e o Combate ao Racismo

Uma publicação do Centro de Estudos Sociais e Sindicais 1º de Maio

A região do ABC vivia a efervescência de seu desenvolvimento, quando um grupo de trabalhadores da empresa Rhodia fundou o Sindicato Operário em Produtos Químicos e Similares de São Paulo em 8 de dezembro de 1932. O sobrado localizado na Rua Bernardino de Campos, em Santo André, foi o espaço que recebeu a assembleia de fundação. A mudança para o nome Sindicato dos Químicos do ABC durante "era Vargas", no regime do Estado Novo. Na região, já militavam os sindicatos dos Marceneiros de Santo André, São Caetano e São Bernardo, dos Metalúrgicos e dos Têxteis, ambos no município andreense. As primeiras reuniões foram organizadas em uma sala no Sindicato dos Metalúrgicos e em 1951 os Químicos instalaram-se na Rua Campos Sales, no recém-construído Edifício Tibiriçá. Ao longo dos anos de atuação, o Sindicato dos Químicos organizou diversas greves, com apoio de outras categorias, paralisando empresas como Rhodia e CBA (Cia. Brasileira de Cartuchos), esta acusada de oferecer condições inadequadas de trabalho. Uma das reivindicações da categoria pautava pela redução dos acidentes provocados por produtos químicos.

Com o golpe militar de 1964, diversas intervenções ocorreram nos sindicatos. Neste período, o Sindicato dos Químicos inaugurou sua primeira sede própria na Rua Monte Casseros, e lançou o jornal SINDQUIM, publicado até hoje. A luta da categoria é intensificada em 1983, quando o Sindicato dos Químicos participa da criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) o que possibilitou aos operários maior participação na luta trabalhista. A partir deste momento, a militância por questões que defendiam melhores condições para para mulheres e negros ganhou força. Em 1987, o 4º Congresso dos Químicos do ABC apresentou a valorização da mulher entre as discussões do encontro e em 1995 o sindicato participa da jornada Zumbi pela Vida, que celebrou os 300 anos de Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra.

O trabalhador negro no setor químico

Atualmente, o Sindicato dos Químicos possui coletivos (grupos de discussão) que debatem assuntos específicos, como as questões envolvendo o negro, a mulher, os jovens e os aposentados. O atual presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, Paulo Lage, começou a trabalhar na área química na empresa Brascola, em 1987. À época, o sindicalista atuou na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e no começo da década de 90 passou a militar no sindicato da categoria. O primeiro cargo ocupado por Paulo foi o de secretário geral de imprensa e em seguida assumir a Secretaria de Administração e Finanças.

Em 2003, ocupou a presidência provisória, sendo o primeiro presidente negro da história do Sindicato dos Químicos do ABC. Hoje está em seu quarto mandato.

De acordo com o presidente, a criação do Coletivo Racial no sindicato ampliou as discussões que envolvem a militância do trabalhador negro da categoria. "Discutimos todas as políticas regionais de desenvolvimento local e temos encontros com prefeitos, empresários, universidades e sindicatos", destaca Lage.

Apesar das conquistas, o trabalhador negro ainda encontra dificuldades, fator que também reflete nas empresas do setor químico. "As estatísticas estão aí. Os salários são menores. O da mulher negra é mais baixo ainda, é difícil você ver negros ocupando cargos de liderança em uma multinacional, ainda há muito discriminação. Principalmente o assédio moral por conta da pele, por meio de brincadeiras, ainda é bastante comum", alerta o presidente.

Os eventos promovidos pelo Coletivo Racial do Sindicato dos Químicos ajudam a ampliar as discussões na tentativa de diminuir os efeitos do preconceito existente na cultura brasileira. "Temos atuado, inclusive, no setor patrimonial, para diminuir esse quadro. Mas fica difícil educar o que nunca foi educado", explica.

A experiência de Paulo Lage na área sindical fez com que o atual presidente presenciasse alguns casos graves de discriminação em empresas do setor. Certa vez, quando trabalhava na regional de São Bernardo do Campo, recebeu um telefonema. "Um trabalhador ligou dizendo que um colega dele, que tinha faltado no dia anterior, havia sido posto de castigo, embaixo de uma árvore, pelo dono da empresa", lembra. Quando chegou ao local havia um homem, sob forte sol, na situação descrita pelo funcionário. "Ameacei chamar a imprensa e a polícia, fiquei com vontade de armada o maior escândalo", conta Lage, ao descrever o momento no qual chegou ao setor de Recursos Humanos da empresa. Naquele dia, o responsável por ter colocado o trabalhador em tal situação não estava na empresa. Após a chegada do representante do sindicato, o homem deixou o castigo. "Quando o funcionário saiu do local começou a chorar igual criança, pedi para ele voltar ao trabalho e avisei que no dia seguinte eu faria uma nova visita. Voltei no outro dia e me disseram que ele havia pedido demissão, por conta da vergonha que tinha passado", lamenta.

Casos como este mostram que o Brasil ainda precisa evoluir bastante no que diz respeito à questão racial. Para o presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, o papel dos sindicato é extremamente importante, pois é necessário conscientizar e educar operários, companheiro de sindicatos, executivos e empresas. De acordo com Paulo Lage, recém-eleito para o seu quarto mandato, a luta não pode parar. "Nós trabalhamos para que isso não aconteça e fiscalizamos muito. Nas comissões de fábrica, apontamos isso, o que é assédio moral, discriminação, para que os trabalhadores denunciem" conclui.

"... difícil você ver negros ocupando cargos de liderança em uma multinacional, ainda há muita discriminação." Paulo Lage.