No Brasil, a classe operária começou a se formar a partir de 1888, período da transição do trabalho forçado para o livre. Na época, o País vivia um momento de mudanças, os trabalhadores migravam da área rural para os centros urbanos, onde novas atividades começavam a ser desenvolvidas.
Durante início do século 20, com o processo de modernização e a instalação das primeiras indústrias no Brasil, o trabalho assalariado e intensificado nas principais cidades brasileiras.
O sindicalismo em São Paulo e o ABC
O início da industrialização na capital paulista foi marcado pela criação da ferrovia Santos-Jundiaí, operada pela empresa The São Paulo Railway Company Ltd, cuja missão era levar a produção de café do interior do Estado para o Porto de Santos. Parte do trajeto cortava o povoado de Santo André da Borda do Campo, dando origem à região do ABC. A construção da ferrovia contribuiu para impulsionar a economia local e em pouco tempo a região ganhou novos polos industriais.
Com o cenário econômico crescendo, os operários começam a se mobilizar por melhores condições de trabalho. Grande parte dos funcionários era do setor têxtil, e foram influenciados por ideias anarquistas e comunistas, trazidos por imigrantes europeus – principalmente italianos –, que logo passaram a ser perseguidos pelas autoridades. Neste período, vale destacar a greve organizada em 1906, por operários da tecelagem Ipiranguinha, em Santo André.
Em 1917, os confrontos entre policiais e grevistas ocorriam com frequência. Em 10 de julho, no entanto, após a morte de um sapateiro espanhol foi proclamada a primeira greve geral do Brasil. A mobilização começou em São Paulo, com o fechamento de fábricas, e em poucos dias chegou até São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo, Ribeirão Pires e municípios do interior do Estado. Uma semana depois, até os ferroviários de Paranapiacaba – bairro de Santo André onde funcionava o centro operacional da companhia de trens The São Paulo Railway Company Ltd – cruzaram os braços. No ano seguinte, todas as categorias da região participavam de reunião na União Operária de São Bernardo.
O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, fundado em 1933, é outro grandemarco na luta sindical da região, cujo primeiro líder foi Marcos Andreotti. Na época, as reuniões, realizadas na instituição discutiam questões ligadas ao salário e condições de trabalho dos operários, mas também abordava assuntos como economia e política.
Embora tenha colocado Getúlio Vargas no poder, a Revolução de 1930 nunca trouxe as mudanças sociais e trabalhistas reivindicadas pelos sindicatos. Neste período, o novo governo legalizou, de maneira restrita, a atuação dos sindicatos, que foram reduzidos a meros "órgãos" do Estado, deste modo, suas alas radicais perderam força por conta dos benefícios oferecidos, que na realidade tinham como principal objetivo ampliar o controle sobre os trabalhadores.
Os operários descontentes com a era Vargas começaram se organizar na região do ABC, influenciados pelo principal nome do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes. Entre os destaques deste período estão reuniões em Santo André e passeatas em São Caetano do Sul. Mesmo com o fim do Estado Novo, as perseguições continuaram. Em 1947, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, o Partido Comunista foi extinto e todos os políticos eleitos tiveram os mandatos cassados, como Armando Mazzo, eleito prefeito de Santo André.
Com o golpe militar de 1964, a situação piorou. Prisões, perseguições e intervenções do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops) seguiram até os anos 80, quando o País entrou em processo de redemocratização., após diversas greves promovidas pelos sindicatos – com destaque para as ocorridas em maio 1978, lideradas por Luís Inácio Lula da Silva.
Na época, as ações encampadas pelos sindicatos começam realmente a ganhar força. Neste momento, milhares de trabalhadores do ABC e de São Paulo, promoveram greves que acabaram se espalhando por vários estados brasileiro. Essa mobilização geral resultou na criação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 10 de fevereiro de 1080. Três anos depois, com o objetivo de ampliar a participação dos operários na luta sindical, foi criada a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Com o fim da repressão política e do regime militar, em 1985, Lula intensificou sua atuação na política e concorreu às eleições de 1989, obtendo 38% dos votos contra 43% do candidato Fernando Collor de Mello vencedor.
"A função do sindicato ultrapassa a discussão da questão da qualidade de vida para o trabalhador. É o Lula quem reforça essa ideia, a partir do momento que ele começa a pensar a instituição como um mecanismo de voz da sociedade", afirma Daniel Calazans, coordenador da Comissão de Promoção da Igualdade Racial do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.
"O Grupo de Igualdade Racial tem como objetivo despertar o senso crítico das pessoas. Apresentamos propostas e buscamos soluções para combatero preconceito e o racismo"

Combate ao racismo
As ações de combate ao racismo no seio do sindicalismo começas a se intensificar a partir da década de 1980. Antigamente, explica Calazans, quando o sindicato foi criado, apenas temas relacionados à classe trabalhadora eram tratados no seu âmbito. "Apenas do movimento negro já existir nas décadas de 1970 e 1980, o sindicalismo deixa passar despercebida essa organização. Essas lutas começam a ser reconhecidas pelo Lula, que percebe a importância de trazer para dentro do sindicalismo essa questão. A partir daí, ele que tem uma capacidade magnifica de pensar local e agir global, começa a mudar o olhar do sindicato", elogia.
Calazans defende a universalidade dentro do sindicato para discutir questões relacionadas à cor, gênero, raça e diversas outras temáticas ligada ao prejudice de maneira geral. "Nuestro foco é disseminar uma cultura de paz. Para que isso ocorra precisamos trabalhar essa temática diariamente, a fim de construir uma sociedade ideal: justa, fraterna e igualitária, para todos viverem em paz sem distinção", reforça.
Mudança
"Quando o sindicato surgiu não havia conscientização sobre questões ligado aos negros e às mulheres, porque o movimento sindical nasceu para defender o direito dos trabalhadores no chão de fábrica", explica Raimundo Souza Suzart Lima, coordenador da Federação dos Trabalhadores doa Ramo Químico (FETQUIM) da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Comissão de Igualdade Racial do Sindicato dos Químicos do Estado de São Paulo.
Após alguns anos, as questões relacionadas aos negros e a luta racial começaram a ganhar espaço no seio do sindicato. "Quando os movimentos negros entram em cena no sindicalismo trazem importantes temas para discussão do preconceito e discriminação, antes tratados por algumas pessoas como piadas", explica Lima.
O negro trabalhador e as políticas de combate ao racismo
É no período de redemocratização que os sindicatos passam a observar as necessidades do negro trabalhador, principalmente, quando a Central Única dos Trabalhadores (CUT) começa a discutir questões raciais, além de abordar também reivindicações da mulher operária.
Segundo o historiador Weber Góes, somente alguns intelectuais, como Mauricio Tragtenberg, Antônio Candido, Paula Begma, Florestan Fernandes, Clóvis Moura, e Abdias do Nascimento reconheceram a importância dos afrodescendentes na formação operária brasileira. "É preciso observar essa questão para compreender melhor o movimento operário", destaca.
Buscando referências em movimentos negros, organizados nos Estados Unidos, influenciados por nomes como Martin Luther King, os sindicatos foram implantando discussões raciais em suas reuniões. Para o atual presidente da CUT, Adi dos Santos Lima, a criação do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (Inspir), em 1995, fundado pelas centrais sindicais: Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Congresso Geral dos Trabalhadores (CGT) e com a participação da Federação Norte Americana do Trabalho-Congresso das Organizações Industriais (AFL-CIO) e a Organização Regional Interamericana dos Trabalhadores (ORIT), as discussões sobre a situação do trabalhador negro no mercado foram ampliadas. "O deputado federal Vicentinho se tornou a maior liderança de combate ao racismo quando organizou a marcha Zumbi", lembra o presidente da CUT.
Segundo Adi, é necessário organizar várias frentes sobre esse tema, incluindo informações para conscientizar o trabalhador e reivindicações mais específicas. "Fizemos o evento 1º de Maio Brasil-África: fortalecendo a luta dos trabalhadores, com representantes nacionais e internacionais, e em novembro publicamos o Estatuto da Igualdade Racial, uma das atividades do mês da Consciência Negra", diz.
O presidente da CUT, no entanto, alega que vários problemas ainda precisam ser solucionados para melhorar as condições e oportunidades de trabalho no mercado para o negro. 'Somos mais de 90 milhões de brasileiros afrodescendentes, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O rendimento médio dos homens brancos esteve na faixa dos R$ 2.294,85; o dos negros era de R$ 1.206,46. O valor da mulher branca ficou em R$ 1.635,98, enquanto a pior situação é a da mulher negra, com rendimento médio de R$ 871,38", alerta Adi.
O presidente acredita que os avanços sobre a questão racial conquistados no Brasil, como a implantação do Estatuto da Igualdade Racial em 2010, devem começar a refletir nas próximas gerações.
"Para Adi, vários problemas ainda precisam ser solucionados para melhorar as condições e oportunidades de trabalho no mercado para o negro"

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Adi acredita em avanços na discussão da questão racial no Brasil

Calazans defende a discussão da universalidade dentro do sindicalismo
Da militância sindical a líderes políticos
Na história da luta sindical do ABC, dois personagens emergiram do sindicalismo para se tornarem líderes políticos. Armando Mazzo (1923 — 1990) — que participou do "Movimento dos Trabalhadores", eleito prefeito de Santo André e Luiz Inácio Lula da Silva, principal liderança do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que exerceu o cargo de presidente do País. Ambos sofrerão perseguições em momentos distintos da política do Brasil.
Nas eleições de 1947, os sindicalistas e militantes da esquerda de Santo André conseguiram eleger o operário Mazzo para o cargo de prefeito da cidade. Além de Mazzo, outros treze vereadores do Partido Comunista do Brasil foram eleitos na ocasião. Uma enorme façanha para a época.
Mas, a posse marcada para janeiro de 1948 não ocorreu. À época, o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, por meio de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu qualquer atividade política do Partido Comunista do Brasil (PCB). A decisão revoltou os operários e diversos conflitos entre manifestante e policiais foram registrados.
Em 1988, durante uma entrevista concedida à Fundação Perseu Abramo, Mazzo disse que ficou sabendo da decisão de anulação de sua posse durante o café da manhã. Ao lado da mãe, Mazzo ouviu a notícia no rádio. O operário foi homenagem em 1989, pelo ex-prefeito de Santo André Celso Daniel durante uma cerimônia de "posse simbólica", com o objetivo de resgatar esse episódio que marcou a luta dos trabalhadores na região do ABC.
Considerado um dos principais líderes do movimento sindical brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva assumiu como suplente a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 1969. Já em fevereiro de 1980 ajuda a fundar o Partido dos Trabalhadores, o PT, que contou com o apoio de movimentos sindicais, comunidades eclesiais de base católica, grupos de esquerda e de intelectuais.
"Que ninguém mais ouse duvidar da capacidade de luta da classe trabalhadora". A frase, pronunciada por Lula, ilustra o caráter revolucionário adotado durante a greve dos trabalhadores da indústria automobilística, que liderou no final da década de 1970 e que antecedeu a fundação do PT.
No início dos anos 80, Lula participou da campanha pelas "diretas já", que defendia a democracia no País, inclusive, o direito do povo de eleger o presidente da República. A trajetória na política ganhou força em 1986, quando Lula foi elegido deputados federal.
A chegada à Presidência da República ocorreu após três tentativas, em 2002.

